Filosofia Moderna

A próxima Roda Filosófica em Mogi das Cruzes, na Livraria Boigy, será sobre a época histórica da Filosofia denominada de Filosofia Moderna. Como proposta iremos ler fragmentos de dois autores ícones desse período.

 

Curso de Introdução ao Pensamento Ocidental

Descartes, Hume e Kant. A questão do conhecimento e o fim da metafísica.

Prof. Ms. Cídio Almeida

No encontro de hoje vou propor outra metodologia para nosso trabalho. No nosso primeiro encontro dei mais importância a uma exposição tipicamente acadêmica, com os trejeitos acadêmicos, com as preocupações acadêmicas. O que notamos não ser a proposta desse curso de Introdução ao Pensamento Ocidental.

Hoje nos propomos outro percurso para podermos pensar temas clássicos da filosofia. Vamos lançar mão de algumas dinâmicas na intenção de fazer a experiência do conceito. Isso parece inovador, mas me parece que segundo Zimer, eminente pesquisador da Filosofia Indiana, mestre de Joseph Campbell, essa prática é corrente na Filosofia Indiana, isto é, procurar ensinar conceitos filosóficos fazendo uso de dinâmicas (performance) pode ser algo estranho apenas para a filosofia ensinada nos cursos acadêmicos do ocidente, mas na cultura Indiana, se seguirmos atento o pensamento de Zimer, iremos observar que não é.

Nossa proposta, portanto, não é radicalmente nova se considerarmos outras tradições filosóficas e não apenas a Ocidental. A pergunta é: se estamos nos propondo uma introdução ao “Pensamento Ocidental”, qual o motivo desse intercâmbio? Nossa resposta será: Dado o fato de ser o pensamento filosófico uma prática rarefeita em nossa cultura baseada na lógica do consumo, nas disputas acirradas do mercado de trabalho, o pensamento filosófico tornou-se uma iguaria que poucos têm acesso a ele. Não se trata de pensar que as pessoas não tenham inteligência, já que a filosofia é considerada o substrato de toda cultura ocidental. Trata-se apenas do fato de que a vida cotidiana nos exige outros modos de pensamento e não o filosófico. Com esse horizonte é que procuramos fazer uso da performance, conceito oriundo da “bory art”, como suporte lingüístico das exposições de nosso curso que será sempre coroado com a exposição tradicional que se vale de uma linguagem consagrada no trato da Filosofia Ocidental.

Então em que consiste nosso método ?

Para alcançar nossos objetivos de hoje vamos faze uso de dois grupos. Com essa dinâmica esperamos retomar as questões que trabalhamos no encontro passado, a saber: de onde surge a filosofia e especialmente a metafísica.

O primeiro grupo será “dramatizado” o conceito fundamental de Descartes. Nossa intenção é tentar produzir condições semelhantes que levaram a Descartes a chegar ao “Penso, logo sou”. No segundo grupo iremos propiciar algumas experiências ligadas ao tato e com isso intentaremos falar da experiência como elemento definidor do empirismo. Por fim, através de uma dinâmica, permitir a todos os presentes o contato estético com a chamada revolução copernicana do conhecimento operado por Kant e de como, desse modo, fica inviável, no âmbito do conhecimento, falar de metafísica.

  1. Racionalismo

O Racionalismo caracteriza-se pelo fato de conceber o conhecimento fundado única e exclusivamente na razão. O nome mais exponencial ou famoso é o do francês René Descartes. Mas isso não quer dizer que não há outros nomes. Existem vários outros e podemos citar alguns entre eles: Leibniz (1646-1716) Espinosa (1632-1677) Malebranche (1638-1715) Pascal (1513-1652), entre outros.

 

Filósofo René (Renato) Descartes.

Existem outras características que unem esses pensadores. A principal, e que vamos falar de modo bem introdutório, é o início do que chamamos modernidade. O termo “moderno”, empregada nos dias de hoje, para dizer que algo é “evoluído”, novo, recém lançado, não é o mesmo que empregamos aqui para dizer Moderno. Primeiro pelo fato de que a “modernidade” já está com seus 500 anos. Depois, a modernidade na filosofia representa um conjunto de idéias, pensamentos, e rupturas com outras tantas.

A modernidade na filosofia ocidental é uma revolta contra os modelos de pensar da Idade Média. Como toda ruptura, o risco é serem radicais demais. Nesse sentido, elaboraram-se vários modelos de pensamento que refutavam a idéia básica de que era Deus quem revelava a Verdade ou o conhecimento humano. Para os filósofos modernos o que deveria guiar a vida humana deveria ser a própria razão humana.

Essa é a principal característica da filosofia moderna, mas não a única. Antes, vale falar um pouco sobre como era ser filósofo nessa época. Se você colocasse em cheque a Igreja Católica Apostólica Romana corria o sério risco de ser morto por ela. Apesar de estranho para nossos dias, vários pensadores foram condenados à fogueira pela Igreja.

Era bom, portanto, ter bastante cuidado com o que se falava. Podemos pensar que isso seja um absurdo e que só acontecia naquela época. Mas não é bem assim. Nos dias de hoje, só para dar um exemplo, temos coisas parecidas. O direito à propriedade é um deles. Mesmo quando a propriedade não cumpre a função social, ela é justificada. No capitalismo de hoje temos empresas que tem mais poder do que os Estados; tem riquezas gigantes, mesmo que existam pessoas vivendo em condições iguais à época medieval. Se alguém, então, propor ocupar e desapropriar essas propriedades gigantes será logo taxado de ladrão e colocado na cadeia. Pois é, isso é um dogma idêntico ao da Igreja Medieval. Mas nos parece normal. Era assim que a Igreja também pensava. Hoje em dia se alguém defender a idéia de que o trabalho não é um valor, e que devemos cultivar o ficar “à toa” ou no ócio, será execrado por todos. A esse propósito vale ouvirmos a música de Zeca Baleiro[1] sobre o trabalho ou “Eu Despedi O Meu Patrão”

A outra característica dos Filósofos Modernos, como indicado acima, é a “crença” na razão. O homem moderno é aquele que não aceita ficar esperando tudo de Deus, mas busca resolver as necessidades de sua vida por si.  Ele não mais espera as chuvas para plantar; mas usa a razão para entender o funcionamento da natureza e assim dominá-la. Então ele estuda astronomia, e procura fazer irrigação; jardim de inverno. Enfim, não espera pela providência divina.

Esses filósofos questionam a idéia de que a Igreja é a representante de Deus na terra. Eles vão dizer que tudo isso é um conto do vigário[2] e que eram homens normais se passando e beneficiando de algo.

Preocupados, então, em fundar um novo tipo de conhecimentos esses homens se lançam na busca de formular novas coisas. É claro que eles ainda mantiveram nas suas “novas” idéias muito dos gregos e dos medievais. É muito difícil romper com tudo. Nessa nova aventura pelo conhecimento René Descartes ficou muito conhecido por dizer: “Penso logo existo”[3].

Essa frase simples revela uma profundidade que inicialmente podemos não notar. Descartes para chegar a essa fórmula pequena teve que antes propor várias coisas e só assim é que iremos compreendê-la.

Descarte nos propôs algo interessante. Será que podemos mesmo confiar em nossos sentidos?  Certamente já nos foi apresentado àquelas imagens que podemos ver várias outras dentro dela. Ou imagens que parecem se mexer, mas é uma pura enganação de nossos olhos. Com isso somos levados a pensar que não podemos confiar sempre no que vemos. Descartes com esses e outros exemplos colocou em cheque toda possibilidade de confiarmos nos sentidos para construirmos algum tipo de conhecimento.

O que você vê nessa imagem?

Mas aí ele ficou muito “angustiado” e continuou a tentar resolver esse problema. Confiar nos sentidos pode ser perigoso, posso estar sendo enganado sem saber. Depois de muita mediação ele descobriu algo: que tinha muitas dúvidas e poucas certezas.  Ele tinha também uma vontade muito forte de conhecer e não se convenceu de que era impossível não conhecer nada.

Essa idéia de não ter conhecimento algum não o deixou em paz consigo mesmo. Aí ele chegou à fantástica idéia de que, ele poderia estar pensado errado, poderia mesmo nem saber se ele mesmo era alguém, pois os sentidos poderiam ter mentido para ele mesmo, mas de uma coisa ele não podia duvidar, que mesmo pensando errado, ele estava fazendo algo: pensava. Então ele teve a primeira certeza, pensava. Depois ele teve uma segunda certeza, se ele estava pensando, mesmo que errado, ele existia, pois o fato de pensar não poderia ser posto em dúvida. Foi quando surgiu a famosa frase: “Penso, logo existo.”

Feito este exercício radical de desconfiar de tudo, que em Descartes é conhecido como “dúvida metódica”[4], ele começa, então, a reconstruir todo o conhecimento com a certeza que apenas o pensar é verdadeiro. Tudo o mais pode nos enganar. É exatamente por isso que ele vai ser considerado “racionalista”, pois para ele nascemos com o conhecimento das coisas dentro de nós. Quando encontramos as coisas, na verdade as “re-conhecemos”, isto é, identificamos algo que já estava dentro de nós. Já nascemos como conhecimento. É o conhecimento inato.

Mas quem pôs esses conhecimentos dentro de nós? Para René Descartes foi Deus. O único capaz de nos ligar com a realidade. Pois, como dito acima, não podemos confiar de “jeito maneira”[5] nos nossos sentidos. Nada prova que os meus sentidos são confiáveis. Nesse sentido, Descartes em partes mantém a idéia de Deus, como aquele que revela para nós uma Verdade. É claro que antes de dele, além da idéia de que era Deus quem revelava a Verdade, a Igreja tinha uma idéia de que as pessoas não precisavam usar a razão. Era só se entregar a Deus, através de seus representantes na terra, que tudo estava resolvido. Cabia ao homem apenas esperar Deus agir. O pensamento de Descartes e dos modernos rompe com isso e diz: se o homem não for atrás nada vai lhe ocorrer ou ele vai ser sempre vítima da natureza.

Enfim, eis Descartes, mas ele não era o único a empreender-se na busca de formas de compreender a realidade que o rodeava. Existiam outros que pensavam parecido com ele, e podem ser chamados de racionalistas, como também que procuravam fazer o caminho inverso destes. No próximo tópico vamos falar exatamente deles, os Empiristas.

  1. Empirismo ou Racionalismo Empirista

Vamos começar pela palavra Empirismo.Sua origem é grega, empeiria, e quer dizer sobre o conhecimento que adquirimos na prática.  Essa idéia já tem sua origem Aristóteles. Como nos indica o Prof. Danilo Marcondes, Aristóteles dizia: “Nada está no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos.”[6] Podemos, então, notar que a proposta dos empiristas é um tentativa de procurar o conhecimento, como os racionalista, mas eles discordavam do jeito e método daqueles.  A proposta deles não partia da razão como Descartes, mas da vida, da prática.

Existem vários empiristas, mas um é famoso igual a Descartes. Seu nome: John Locke (1632-1794). Sua frase famosa é: “Somos como uma tabula rasa”, isto é, nascemos sem saber nada e tudo que sabemos depende de termos que experimentar. Locke dizia:

“Não vejo, portanto, nenhuma razão para crer que a alma pense antes que os sentidos lhe tenham fornecido idéias nas quais pensar. E, à medida que as idéias aumentam de número e são retidas no espírito, a alma, com o exercício, melhora sua faculdade de pensar em todas as suas várias partes. Em seguida, compondo essas idéias e refletindo sobre suas próprias operações, aumenta seu patrimônio, bem como sua facilidade de recordar, raciocinar e utilizar outros modos de pensar.” (LOCKE. In: REALE & ANTISERI, 2007. P. 96)

Essa é, portanto, uma das diferenças básicas dos empiristas para os racionalistas. Não quer dizer que eles não usavam a razão, daí poder se referir a eles como Racionalismo empirista, pois eles também faziam uso da razão e pensavam que elas auxiliariam o homem a viver melhor. O ponto de discordância deles era de onde surgiam as idéias.

Antes de falar de outro empirista famoso, Bacon, vale falar rapidamente do contexto histórico dos empiristas e das possíveis influências do contexto em que viviam e as idéias que elaboraram.

Para alguns historiadores da filosofia o fato dos empiristas viverem geralmente na Inglaterra isso teria influenciado o pensamento deles. A Inglaterra era rica e muito ligada a vida do comércio, às colônias de exploração, enfim, poderia dizer que eles eram práticos. A nova família Real que se instalou por lá em 1688, após a que é a queda da dinastia Stuarts, propiciou um novo jeito de levar a vida. Não podemos também esquecer que a Reforma Protestante também criou um novo jeito de penar a vida. Não mais ligada a espera de um Deus que a tudo iria prover, mas que devemos fazer nossa parte nessa vida.

O espírito de uma razão que nos serve para viver bem e melhor, portanto, segundo esses historiadores da filosofia, teria desenvolvido nos ingleses daquela época um senso prático das coisas. Isso explicaria os motivos que levaram os empiristas ingleses a considerar que é a realidade que nos ensina e não a razão em primeiro lugar.

Outra característica do empirismo se deu nas ciências, ou seja, como produzir um conhecimento que considere a vida ou a “natureza” em primeiro lugar. Temos nesse campo Bacon e seu método experimental que caracteriza até hoje as ciências em geral.

A idéia é testar algo, levantar uma hipótese e depois fazer um teste para ver se aquilo que eu pensei antes se comprova. Deste modo é que poderei saber se o que pensei é ou não uma verdade. No próximo experimento eu já vou levar a “experiência” do primeiro e isso será de muita valia.

Enfim, eis o empirismo de modo rápido. Existem muitos outros pensadores nessa área do saber. A influência dessa corrente é muito forte, com os devidos ajustes, na cultura “pragmática” dos Estados Unidos da América.

 

  1. Brevíssimo balanço: Racionalistas e Empiristas

Em termos bem caricato podemos dizer que os racionalistas reduziram tudo a razão e ficaram presos dentro dela. Chegaram ao ponto de ignorar a realidade. Por outro lado, os empiristas, reduziram tudo à experiência e tiveram dificuldades de explicar algumas coisas que não dava para dizer que só através da experiência é que se constrói conhecimento. Poderíamos, por exemplo, brincar com um empirista, dizendo para ele o seguinte: “você só vai saber que drogas faz mal se fizer experiência?”.

 

  1. Criticismo de Immanuel kant

Ficou no ar certo impasse entre as duas correntes apresentadas acima. E vários filósofos procuram resolve os dilemas sobre o conhecimento racionalista ou empirista. Entre eles, o mais famoso e importante, temos Immanuel kant. Nascido em uma cidade chamada Montanha do Rei Carlos (Konigbergem) ele foi um filósofo muito metódico. Sua maior invenção foi resolver o problema de mais de 300 anos, ou seja, ele conseguiu um meio termo ou um jeito diferente que possibilitou resolver os dois problemas acerca do conhecimento apresentado pelos racionalistas ou pelos empiristas.

Mas kant fez mais uma coisa. A resolver os dilemas de seus antecessores, ele pôs fim na metafísica.

Vamos, então, por parte. Primeiro saber como ele resolveu o problema e, depois, como ele decretou o fim ou a impossibilidade da metafísica.

Até Kant os pensadores tinham em mente o seguinte: a nossa mente saía de nossa cabeça e caminha ao encontro das coisas, chegando lá entrava nas próprias coisas. Desse modo falamos em “objeto” do conhecimento. Desde Aristóteles era assim que se pensava. Ou seja, nós indivíduos envolvíamos o objeto e por isso compreendíamos as coisas. Podemos fazer uma imagem anedótica para ver se nos auxilia. Certamente já assistimos na televisão uma cobra Jibóia ou uma Sucuri se alimentando de algum animal. A cobra se molda à sua presa, como se vestisse ela com seu próprio corpo e depois, lentamente, ela o absorve.

Nossa mente faria a mesma coisa, segundo os pensadores antes de Kant. Mas Kant propõe algo novo que chamamos de revolução copernicana. E por esse nome.

Como sabemos Nicolau Copérnico propôs que a terra não girava em torno do Sol, mas era a terra que fazia órbita ao Sol.

Até Kant os filósofos pensavam que era o “Sujeito” quem envolvia o “Objeto”, ou seja, o Sujeito seria o Sol e assim girava, fazia órbita ao Objeto. A revolução de Kant foi dizer que era exatamente o contrário, ou seja, eram os Objetos que faziam órbita ao Sujeito.

Foi assim que ficou conhecida como revolução copernicana do conhecimento. Outra metáfora que nos auxilia muito a compreender essa nova forma de conhecer o que nos cerca é fazer uso de uma ilha. Nessa ilha fica o “Sujeito do Conhecimento”; ele não pode sair rumo ao mar, mas apenas esperar que as novidades cheguem até a ilha onde se encontra. Com essa história Kant quer dizer que o Sujeito é que recebe, através dos sentidos, todas as informações necessárias para se fazer o conhecimento.

Kant não ficou nisso, pois assim ele poderia ser chamado de empirista. Ele disse que temos algumas coisas com as quais já nascemos com elas. Ele diz que temos já em nós duas idéias: espaço e tempo.

Mas o que isso quer dizer? Simples, para Kant nós nascemos com algumas capacidades, chamadas de inatas; essas capacidades são coisas “abstratas”, mas encontra-se em nós ao nascermos. Porém essas capacidades têm algo muito importante, pois em contato com as coisas, elas começam a trabalhar e organizar tudo que surge da realidade. Desse modo nós produzimos conhecimento.

Kant vai dizer muito mais sobre o conhecimento, mas o mais importante é compreender a tal revolução copernicana. Depois compreender que as faculdades inatas com as quais nascemos é a de espaço e tempo, ou seja, nós humanos temos conosco a capacidade de identificar as coisas, mas elas precisam ter no mínimo “altura e largura” (espaço). Não dá para falar que tenho um cachorro, mas ele não tem “altura, largura e profundidade”. Depois, nós temos a capacidade de organizar as coisas, classificar, por em ordem. Essa capacidade seria tempo e nascemos com ela também. Ou seja, nós sabemos diferenciar qual objeto nos foi apresentado primeiro e qual foi segundo. Essa capacidade de distinção é muito importante.

  1. O fim da metafísica.

Quando estudamos Platão e Aristóteles fizemos o esforço para perceber que há algo além das aparências determinando a realidade. Kant, com auxílio de Hume, vai por fim nisso. Para Hume dizer que há uma causa para as coisas é uma empresa muito difícil de provar. Ele radicaliza dizendo que na verdade fazemos isso por hábito. Por exemplo, se jogamos uma pedra, sabemos que ela vai cair no chão. Para nós isso parece óbvio. Hume[7] dúvida disso. Seria ele um louco?

Vamos ver um exemplo para melhor compreendermos a idéia de Hume. Hoje sabemos que se jogarmos uma pedra onde não há gravidade ela não vai cair. Se a pedra for pequena e fizermos um lançamento estando em solo lunar, teremos a surpresa da pedra se comportar totalmente diferente do que estamos acostumados em solo terrestre. Então é isso, para Hume, tudo é hábito. É claro estamos fazendo aqui um resumo enorme e a teoria de Hume não é simples assim. Para nosso objetivo de uma Introdução ao Pensamento Ocidental isso já é válido.

Motivado por essas idéias de Hume, Kant, então, diz o seguinte: se o indivíduo mora na ilha, ele não poderá falar nada do além mar. Ou seja, se para construirmos conhecimento precisamos que as coisas cheguem até nós, só podemos falar dessas coisas. De onde elas vieram não dá. Por hábito até fazemos isso, mas não poderá ser considerado como conhecimento sério. Não podemos levar a sério, no que toca ao conhecimento, alguém que diz que tem objeto (um avião particular), mas que o mesmo não suscetível de ser mostrado. No mínimo vamos tomar essa pessoa como uma problemática do ponto de vista psicológico.

Com isso as pessoas que produziam conhecimento, mas sobre coisas impalpáveis, foram deixadas de lado. Só se faz conhecimento digno de ser levado a sério quando respeitado essa regra. Desse jeito toda a reflexão que falava de princípios primeiros ou mundo das idéias, deixou de ser considerado. É o fim da metafísica enquanto ciência dos princípios.

 

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Letra da música de Zeca Baleiro Eu Despedi O Meu Patrão

Composição: Zeca Baleiro

 

Eu Despedi O Meu Patrão!

Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego…(2x)

Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar
Nem pela vida mais vazia
Eu despedi o meu patrão…

-Eu Despedi O Meu Patrão!

Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego…(2x)

Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar
Nem pela vida mais vadia
Eu despedi o meu patrão…

-Eu Despedi O Meu Patrão!

Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego…(2x)

Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar
Nem pela vida mais vazia
Eu despedi o meu patrão…

Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego…(2x)

Ele roubava o que eu mais valia
E eu não gosto de ladrão
Ninguém pode pagar
Nem pela vida mais vadia
Eu despedi o meu patrão…

Não acreditem!
No primeiro mundo
Não acreditem!
No primeiro mundo
Só acreditem!
No seu próprio mundo
Só acreditem!
No seu próprio mundo…

Seu próprio mundo
É o verdadeiro
Meu primeiro mundo
Não!
Seu próprio mundo
É o verdadeiro
Meu primeiro mundo
Não!
Seu próprio mundo
É o verdadeiro
Primeiro mundo
Então!…

Mande embora
Mande embora agora
Mande embora
Mande embora agora
O seu patrão
Seu patrão (O seu patrão!)
Mande embora
Mande embora agora
Mande embora, agora
Mande embora o seu patrão
O seu patrão…

Ele não pode pagar
O preço que vale
A tua pobre vida
Oh Meu!
Oh Meu irmão!…(2x)

(Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.)

Eu despedi o meu patrão
Desde o meu primeiro emprego
Trabalho eu não quero não
Eu pago pelo meu sossego…(5x)

Eu Despedi O Meu Patrão!

* A parte em parênteses é trecho de soneto de Gregório de Mattos,
poeta bahiano barroco *

[1] Música de Zeca Baleiro sobre o trabalho. Ver a letra da música no final do texto.

[2] A expressão vigarista surge de vigário. Vale explicar os motivos. O vigário na Idade Média era alguém muito importante. Seria quase um delegado de polícia. Mas naquela época o mundo era outro. Não se tinha carros, nem telefone, e muitos poucos sabiam ler. Então, para se ir da periferia de São Paulo ao centro se levava meio dia. Tudo era muito lento. Com isso, muitos malandros se faziam passar-se por vigário, pois as pessoas o recebiam com tudo que tinha direito. Sobretudo serviam fartas refeições. Enfim, o falso vigário tratava logo de se mandar. Quando chegava o verdadeiro Vigário, se descobria que aquele outro era falso, portanto, “vigarista”, falso vigário. A expressão cair no conto do vigário tem a mesma origem.

[3] Quando éramos estudante de Filosofia lá na PUC Minas, tínhamos a tática de brincar muito com os conceitos filosóficos, era um jeito mais gostoso de aprendermos essas teorias que a primeira vista parece muito difícil. No caso de Descartes, dizíamos: penso, logo desisto. É claro que não desistimos, era apenas uma anedota que revelava que muitas pessoas preferem não pensar, desistem. É claro que nosso projeto era exatamente o contrário, queríamos loucamente pensar todas essas teorias.

[4] A dúvida é metódica. Não se trata de uma dúvida na qual ele de fato questiona tudo, mas é um “faz de contas.” Essa condição é fundamental, pois o jeito que Descartes leva suas dúvidas poderia por em cheque o próprio papel da Igreja. O que o levaria fatalmente para a fogueira. Então, sabiamente, ele opta por dizer que se trata de uma dúvida apenas metódica.

[5] Expressão popular para dizer “de modo algum”.

[6] MARCONDE, D. Iniciação à História da Filosofia: Dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 176.

[7] Hume diz que é apenas hábito nossas inferências. Logicamente, por exemplo, não dá para dizer que no fogo está implícita a idéia de que ele queima uma folha. Temos o hábito de ver o fogo queima a folha, apenas por hábito e nada mais.  Em termos lógicos, no fogo não dá para saber o que ele pode fazer. A idéia de que a criança coloca a mão no fogo é um exemplo. Para a criança não naquele objeto uma indicação de que ele “queima”. As idéias em Hume são construções que fazemos a partir do que observamos empiricamente e consistem em abstrações e nada mais. Não tem o poder de dizer algo sobre a realidade, o que também descaracteriza a idéia de substância que comumente pensamos existir.

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