Filosofia Moderna

A próxima Roda Filosófica em Mogi das Cruzes, na Livraria Boigy, será sobre a época histórica da Filosofia denominada de Filosofia Moderna. Como proposta iremos ler fragmentos de dois autores ícones desse período.

 

Curso de Introdução ao Pensamento Ocidental

Descartes, Hume e Kant. A questão do conhecimento e o fim da metafísica.

Prof. Ms. Cídio Almeida

No encontro de hoje vou propor outra metodologia para nosso trabalho. No nosso primeiro encontro dei mais importância a uma exposição tipicamente acadêmica, com os trejeitos acadêmicos, com as preocupações acadêmicas. O que notamos não ser a proposta desse curso de Introdução ao Pensamento Ocidental.

Continue reading

O mal

O mal não é desejado por ninguém. Contudo, na história da humanidade o que mais vinca a memória são exatamente as maldades. Afinal, por que há o mal?
Exceto “macaco loco” (obra ficcional direcionada à crianças – Craig McCracken), que acorda todos os dias e pensa qual maldade irá fazer naquele dia, os humanos desejam a cada dia fazer o bem e fazê-lo a cada dia melhor.
Contudo, como podemos observar hoje no Brasil, através dos jornais, prosas informais, nas famigeradas redes sociais(virtuais), impera o reino do mal. Como protagonista do mal o velho outro. (O inferno são os outros. Sartre)

Uma das primeiras problemáticas me parece estar na linguagem. Essa mediadora não consegue efetivamente mediar, podemos em rápidas observações notar que palavras grafadas de modo objetivo tem interpretações variadas. O que é próprio da linguagem, já que a mesma é uma convenção, isto é, toda palavra é um combinado entre duas ou mais pessoas. Combinamos que vaca é aquele bicho… e se deixarmos de combinar a palavra perde seu uso. Podemos até inventar outros usos dessa palavra…
Portanto, vemos pessoas ou grupos isolados uns dos outros, mesmo que sendo listados como amigos de face ou trabalhadores de um mesmo prédio. Seria como se observássemos as pessoas discutindo com paredes, postes, entre outros objetos que enquanto humanos sabemos que não seria possível um diálogo.
O problema do abismo linguístico nos faz retomarmos Oscar Wide, que propõe em um de seus livros ficcionais a ideia de um rei que retira palavras do idioma de seus súditos como estratégia de dominá-los melhor.
Outro aspecto já conhecido pela filosofia é que o mal não vem em forma de mostrengo dos filmes. Já dizia Hanah Arendt que o mal pode ser algo banal ou cotidiano, tal ideia foi desenvolvida por ela sobre julgamento do nazista Eichmann em Jerusalém. A constatação de Arendt foi que tal homem, responsável pela logística de deportação em massa dos judeus para os campos de concentração e depois para os campos de extermínios, não era em si alguém asqueroso. Aparentava boa aparência”, um homem de hábitos normais. Esse é sem dúvida um tópico que é atual, até que ponto o cidadão de bem, de boa família, não seria o oposto dessas imagens? Por que apenas o negro favelado(expressão racista que é disseminada de modo dissimulado por vários meios de comunicação da cultura brasileira) dos programas do datena ocuparia o lugar do mal? Até que ponto o charmoso Governador Cabral (RJ) não seria mais sanguinário do que aquele bandido que datena vocifera todos os dias?
Em épocas de exaltação geral talvez seja o momento mais oportuno para pensarmos que os lugares comuns do mal não são capazes de dizer de fato o que é o mal. E que ele não se enquadra num partido, nem mesmo a palavra mal pode definir ele por completo.
Mas não nos iludamos, o mal existe. E ele pode está mais perto de nós do que no longínquo outro.
Estética e Educação, pois ensinar filosofia não precisar ser algo mentalista.

Elle

Elle, o filme.
O filme Elle de autoria de Philippe Djian, dirigido por Paul Verhoeven (também dirigiu RoboCop) e roteiro de David Birke tem a atriz francesa Isabelle Huppert e o ator Laurent Lafitte no centro do drama, classificado como gênero de suspense.
Não desejo tratar de denotar a trama, especulando possíveis aspectos não revelados nas cenas, o que acaba por interpor ao futuro cinéfilo uma leitura; uma constelação semântica, privando-o de fazer por si tal exegese.
Desejo apenas tomar o fato singular tratado no filme. A vida privada, os detalhes do singular, o oposto dos filmes épicos estadunidenses. Ao contrário das generalidades e superficialidade dos “lixos” estéticos estadunidenses, salvo excessões, a filmografia francesa, ainda que dirigida por um Neerlandês, foca o singular, a vida privada.
O filme tem o custo de 9 milhões de dólares, algo irrisório perante os 200 milhões de dólares de um Lanterna Verde. Porém, os filmes franceses como “Prenda-me” (Arrêtez-moi) ou “Amor” (Amour) e agora Elle conseguem produzir uma teia ficcional que nos prende, e seu truque, segundo meu olhar, é exatamente o singular.
A vida singular e privada representada na dramaturgia nos fala directamente; aquela aproximação “poderia ser comigo” ocorre de modo orgânico. Diante do filme Elle, com Isabelle Huppert interpretando a empresária Michèle Leblanc,  ficamos ruborizados com a condição humana, nossa condição. Demonstrando de certo modo como somos educados para negar tal aspecto presente em nós. Tal prova advém, creio, do fato da singularidade nos ser desconcertante e não familiar, normal.
Enfim, não vou aferir meu juízo de gosto sobre a experiência estética que tive no filme. Muito menos se gostei ou não da atuação de Isabelle Huppert, concentro-me apenas em refletir que tal ficção ressoou de modo marcante minha consciência.
Estética e Educação, pois ensinar filosofia não precisar ser algo mentalista.

O Muro de Trump

Ainda sobre o tema do universal e o particular: A
A propósito do “muro de Trump”.
Tenho me ocupado e mesmo me esforçado para reposicionar o fazer filosófico. Na graduação de filosofia e mesmo no mestrado em filosofia acabamos praticando um tipo de filosofia. Aprendemos e exercitamos basicamente a escrever a dissertar sobre temas filosóficos. O repertório filosófico é amplo, pode tratar de política, religião, estética (mídia, filmes, romances, teatro, etc); todos acabam por articular ideias gerais, tais como o “poder”, “a percepção”, “gosto estético”, “ética” etc.
Desse cenário generalista é que tenho me rebelado, é angustiante se ver enquanto profissional de filosofia no qual o labor dessa profissão seja apenas os comentários gerais sobre tudo; parece que estamos sempre flutuando nas nuvens ou boiando na superfície do mar. O primeiro problema é que essa definição do que é a filosofia advém de uma prática e não de uma reflexão sobre a mesma; que denominei fruto dos “professores-bem-pagos” das “Universidades de Elite”, pois são delas que saem os conteúdos publicáveis em forma de livros ou de artigos em jornais. São deles as profusões de artigos, palestras e seminários e que determina a carreira de filósofo.
 Uma aplicação desse problema do geral e do particular pode ser dada com a política. Precisamente a eleição do presidente dos United State of America (Estados Unidos da América). Tema problema levantado por José Geraldo Estevam, nosso colega de graduação em filosofia.
Desse problema tema a primeira questão, além de ser uma generalidade ou um tema distante das pessoas comuns do Brasil, me parece ser a dificuldade “conectá-la” à vida cotidiana das pessoas. Dos alunos, dos leitores e nossa mesma enquanto professores de filosofia ou filósofos. Essa ideia que nos parece ser obvia, quando olhada de perto ou quando “dividida” à maneira de René Descartes, parece ser impossível.
Conectar através de causa e efeitos tal evento à vida particular não é fácil. Em primeiro lugar, supomos relações causais. E aqui posso discorrer sobre uma possível relação entre Trump e pessoas singulares. Se consideramos os moradores de Conselheiro Lafaiete e região a eleição de Trump pode ter efeitos perceptíveis já no primeiro semestre de 2017. Qual relação existe? Oras, como região de extração e processamento de minério de ferro, sendo fonte de emprego direto para muitos lafaetenses (nascidos em Conselheiro Lafaiete), se Trump cumprir a taxação que prometeu sobre produtos advindos do exterior, como forma de priorizar os empregos dos cidadãos norte-americanos, as empresas do “quadrilátero ferrífico” irão a bancarrota. Mesmo que mercados chineses e japoneses ainda sejam grandes compradores, o Brasil tem uma relação histórica de venda de ferro para os USA. Uma taxação como a prometida em campanha, como estratégia de inviabilizar a venda do metal, iria criar o caos nessa “comodity”. Mas tais ideias ainda não comunicam muito, não consegue chegar e ser útil  ao metalúrgico que perdeu seu emprego.
Outro lugar que irá repercutir a eleição de Trump será na região de Governador Valadares. Região do Leste do Estado de Minas Gerais (Brasil) reconhecida nacionalmente como o lugar que mais se “exporta” brasileiros para trabalhar nos USA. Certamente o tema Trump interessa vivamente aqueles moradores de Valadares e regiões vizinhas; como filho da região, sei que existem vários brasileiros dessa região morando “ilegalmente” nos USA. Posto na categoria de “latinos”, certamente teremos amigos e mesmo parentes deportados entre os 2 milhões prometidos por Trump.
Nos dois casos acima citados ambos são complexos de serem acompanhados. Dependem de muitos fatores e devemos reconhecer que não conseguimos em nossas análises de filósofos prospectar todas as informações do “geral ao particular”.
Os limites do geral para o particular não estão só em coletar informações e estabelecer relações lógicas do tipo como relacionar o “muro de Trump” com bloqueios afetivos de um metalúrgico.  A questão também se põe na própria obtenção das informações. Como já aludiu Adorno (filósofo judeu-alemão do contexto da Segunda Guerra Mundial), a sociedade burguesa é por natureza fechada, ela por natureza não revela suas informações mais preciosas; portanto, prospectar uma cadeia de causa e efeitos, o que nos garantiria relacionar o geral ao particular, nesse campo é tarefa fadada ao fracasso. E como solução para conhecer efetivamente a sociedade burguesa ele já indicava o caminho da literatura como estratégia para “ler” a realidade.
Dizer para um amigo de Valadares que Trump vai expulsá-lo ainda é geral demais. Nomear as empresas que compram os tarugos de ferro da Açominas ou lhe descrever a “Mobile Bay” (Bahia que fica no Estado do Alabama; Cidade de Mobile onde se concentra fábricas de automóvel nos USA; destino de quase 100% do ferro adquirido no Brasil – Minas e Pará) por onde entra todo o ferro adquirido do Brasil, creio não somar nada na vida particular do leitor ou do nosso aluno.  
Esse desafio não é só de filósofos, os ecologistas já cunharam a expressão “pensar globalmente, agir localmente”. No caso do filósofo e de seus temas, das suas “opiniões”, o desafio é o mesmo. Como pensar o “muro de Trump” lá no México e a subjetividade? Como pensar os “muros” subjetivos, bloqueios oriundos de questões afetivas? Porque em nosso psiquismo sempre queremos expurgar o outro? Porque queremos sempre liquidar o outro? E por isso nas micro-relações nos valemos de expedientes linguísticos que deprecia amigos, parceir@s?
Creio que esse movimento conseguirá sair do mundo das nuvens e pousar na terra. Ou sair do “verbo” e se “fazer carne”.
Outro exemplo do problema da generalidade e que acaba por apagar as singularidades; e com esse apagamento um tipo de dominação das individualidades, são os filmes produzidos nos USA ou que passaram a utilizar o mesmo estilo. São filmes de catástrofes mundiais (isto é só os USA), guerras colossais, enfim, todos negando a subjetividade e concentrando nos grandes efeitos, nas generalidades. Você não se vê nos filmes ou, exemplo profundo da opressão, se sente possuído pela violência ali retratada; maquiada, linda (Angelina Jolie – Ajo Bonita?!); atrizes e atores magr@s, lind@s, dando saltos monumentais, porradas que furam paredes. Enfim, toda uma estética que nega profundamente o singular, nega mesmo a condição do humano, falsificando a própria percepção que podemos ter de nós como pessoa, corpo; músculos.  Tais filmes, que acabaram com o realismo de Bruce Lee, são máquinas de nadificação, são como “cavalos de Tróia – trojan” a serem instalados no psiquismo dos indivíduos todos os dias.
Doutro lado, a filmografia francesa com seus temas micros. “Prenda-me”, “Mate-me”, “La Loi du Marché”(traduzido como o Valor de um Homem), enfim, filmes que se concentram nas questões do micro; do indivíduo. Não só os cenários são muito mais em conta, mas os temas tocam a mim; ao sair da seção você não se sente “nadificado” anulado pelas megalomanias norte-americanas. O efeito estético não é o da angústia, mas do exame de si; da verificação imediata do tema em si.
Esse papo ainda continua, pois em Espinosa a ideia de realidade se casa bem com o problema do geral e do singular. Quanto mais sou oprimido, seja pela violência ou pelos discursos que nadificam o singular, tenho minha realidade diminuída. Sem realidade para atuar, pois ela é atacada, perco em qualidade de vida. A alegria em Espinosa é exatamente essa expansão do meu eu; que se esparrama pela “rea-lidade”. A nadificação ou o esquecimento do eunos discursos gerais tem produzido apenas angústia, que é exatamente a opressão do tamanho do eu.

Estética e Educação, pois ensinar filosofia não precisar ser algo mentalista.

Para que serve as analises genéricas da Filosofia?

Apresentação
O breve ensaio faz parte de uma série que tenho feito no sentido de buscar um outro modelo de ensino e de definição do que é seja a filosofia. Meu esforço consiste em demonstrar que as definições e práticas filosóficas que abundam no mercado literário expressam apenas uma faceta do que pode ser a filosofia e sua prática.
1. Do universal ao particular singular.
O particular parece não ser objeto dos analistas filósofos e de todo um jeito de fazer do pensamento de esquerda entre nós brasileiros, para aqui restringir o raio geográfico em terreno já particular no orbe terrestre.
Do que serve análises da política geral se o mesmo produto analítico em nada tocar o presente singular deste ou daquele indivíduo? Especialmente do aluno para quem damos aulas? Aliás, o contingente de professores de filosofia anônimos por esse Brasil não se serve ele mesmo da caixa de ferramentas que é a filosofia exatamente por acabar por reproduzir esse modelo ou jeito de filosofar, a saber, o jeito dos “filósofos de Estado” ou dos “Estabelecimentos de Ensino Privado” que forma professores de Filosofia. Enfim, a filosofia do “oroborus” que citei em outro texto.
O particular, o singular, além de ser desdenhado na cultura filosófica, é cheio de armadilhas. Quem disse que ele deveria ser fácil? Que seria ele acossado, exprimido e enlatado em alguma categoria universal? O primeiro risco é enquadrar o particular em categorias gerais, assim na pressa, no pânico de ficar ali diante do inominável. Sem saber se ele é Hegel, Heráclito, Sócrates, Franklin, Bruni, etc…
Por outro lado, seguindo a fenomenologia, esse particular revela um universal. Contudo, creio que possa haver universais ainda não revelados e que desse modo, sobretudo no que toca em como cada indivíduo se organiza no mundo, será pela primeira vez que iremos notificar mais uma singularidade. Não só a Filosofia profissional padece desse medo do singular, mas e sobretudo as demais ciências de base matemática-física, isto é, aquelas que fizeram o famigerado desejo de Kant: “o juízo sintético a priori”, traduzindo: conseguiram adiantar os resultados por inferência matemática sobre alguma singularidade. Adiantaram, sem se imiscuir na singularidade, como o singular se comportaria. Enfim, afagaram o nosso medo transgeracional do imprevisto.
Enquanto o discurso dos filósofos de jornais voam de pico a pico das montanhas, os mesmos das “Universidades de Elite”, sejam elas privadas ou públicas estatais, o pobre, o marginal, o negro(preto?!), o lusitano, o angustiado, o paranoico, o histérico, caminha sem conexão alguma com tais ideias. Ideias que nos casos de muito angústia, de contextos opressores das singularidades, de nada servem. (Sendo radical, a falta de serventia dos discursos de “Condor” serve apenas para seus escritores; que ganham um pouquinho nos jornais, docência, livros, shows filosóficos, etc). 
Tenho me interessado, desde a ideia de filosofia trágica em Nietzsche, em exercícios filosóficos como “terrenificaçao” (profanação) da filosofia. Nessa esteira, a economia solidaria, como tem sido desenvolvida por Euclides André Mance (Editor Ifibe) entre outros e que fazem orbita à ideia de Filosofia da Libertação (essa heresia filosófica para os eclesiásticos da Filosofia Universitária), responde os aspectos materiais de qualquer discurso. Vejam, responder quer dizer tratar dessa dimensão fundamental do contexto do “eu” (Ortega y Gasset) que vive em um contexto material, além do cultural.
Não adianta apenas tratar do tema da economia, é preciso ir além de “oferecer” um curso com mensalidade. A economia solidária precisa já ter nessa relação algo de solidário, outra forma de promover trocas, de atender necessidades dos viventes. Portanto, aqui a questão não é “pensar” a economia solidária, mas praticá-la. E sua prática já começa na forma como ela se divulga, se apresenta às comunidades e seus indivíduos.  O único preambulo necessário nessa prática é exatamente como se por como viável em meio à nossa sociedade profundamente vincada segundo a lógica da economia capitalista. Como ganhar a atenção em épocas de “app`s”? Como articular uma nova forma de troca que não seja a do cartão de crédito ou dinheiro vivo?
O segundo bloco de uma filosofia trágica, de uma tragédia filosófica (exercícios filosóficos), e as entranhas do particular aludido no início desse texto nos leva a Filosofia Clínica ou à Psicanálise. Sem a compreensão da psique e seus pontos cegos não vamos muito adiante. A sonhada revolução, a libertação, só se dá de dentro para fora. Do indivíduo particular para o objetivo/comunitário. E aqui não interessa esquerda ou direita; liberal ou aristocrático, a questão é a dinâmica do psiquismo. Sem inventar a roda, a psicanálise a que a Escola de Frankfurt nos indica parece-nos já ter somado um bom percurso reflexivo e prático sobre o tema do psiquismo. Se considerarmos a proximidade das ideias e dos métodos da psicanálise com a filosofia, sobretudo com a fenomenologia, creio que Filosofia Clínica não será uma novidade radical, mas apenas um desdobramento profícuo que pode ser posto a serviço dessa “terrificação” da filosofia.
Filosofia Clínica, como podemos verificar nos escritos de brasileiros dedicados ao assunto, também não cresce na negação de lacaniamos ou freudianos. Apenas guardas algumas distinções, alguns trajetos distintos, mas não há uma mútua negação. Porém é fato que esse cuidado do particular, do singular, é uma aterrisagem da filosofia sobre uma parte do real. Cuidar para que a filosofia possa promover a vida humana não a reduz a esse método, vale notificar. As pesquisas e os demais labores da filosofia me parecem necessários, só não podem serem tomados como senso a única forma, sob pena da total inutilidade ou subordinação às modas de época.
Enfim, encerro esse micro-ensaio retomando o problema da universalidade dos discursos filosóficos e sua incongruência com o particular. Mesmo que em filosofia temos sempre o cuidado de verificar que nossos “universais”, análise da grande política por exemplo, tenham sempre vínculos com o real, através de uma sucessão de causas e efeitos, minha ideia, contrário a esse desejo otimista, é que nossas análises filosóficas, (sobretudo junto aos alunos para quem ministramos aulas) se passam ao largo do singular; levando-nos, sem nosso consentimento é claro, a produzir uma parafernália quem nem mesmo nos serve para acessar o real. Não só nossos alunos terão dificuldades em conectar tais abstrações àrealidade deles, mas nós mesmos, professores de filosofia, temos sentido a frustração de não conseguirmos acessar a realidade de nossos alunos, que é nossa realidade de trabalho docente. Pois se conseguirmos falar à essa singularidade, se compreendermos ela e, a partir dela, conseguirmos convidá-la à filosofia, certamente teremos sucesso; romperemos a inércia; promoveremos ação filosófica. Por esse caminho de certo que estaremos exercitando a filosofia.  

Estética e Educação, pois ensinar filosofia não precisar ser algo mentalista.

Por uma filosofia a serviço

A filosofia é apresentada às pessoas como sendo algo sem utilidade. É clássica entre nós brasileiros a brincadeira de Marilena Chaui de que filosofia é uma ciência “pela qual e sem a qual continuamos tal e qual”, isto é, totalmente inútil. É claro que a professora, depois da brincadeira, encaminha para nos apresentar o que de fato consiste a sua definição da Filosofia como atividade de produção teórica restrita ao mundo universitário.
Qualquer tentativa de encaminhar a filosofia para uma ideia de profissão ou utilidade é vastamente rechaçada e ridicularizada pelos filósofos do Estado. Esses professores acabam por ocupar um lugar estratégico nesse dizer, eles não só dizem, mas ocupam lugares remunerados que corroboram o que dizem. A condição material do dizer deles é fundamental para compreendermos o que é filosofia ou o que se diz ser a filosofia entre nós brasileiros e mesmo no mundo euro-cêntrico.
O dizer de alguém pode deter “Poder” ou não. Na economia do “Poder”, sabemos que o saber anda a reboque, desde Marcuse sabemos que o pretenso ascetismo do sujeito cognoscente é mera ilusão ou intensão.  Portanto, não podemos nos furtar de pensar que a definição de filosofia, sobretudo a sua restrição a mera produtora de “suprimento para outras ciências”, está inscrita e se explica muito mais pela posição de “Poder” de seus “professores”(Preletores).
Para que o dizer acadêmico exerça o seu poder temos uma imbricada relação no regime de titulação e produção bibliográfica. Os professores que ocupam as instituições de formação de outros professores, através de seus mestrados e doutorados, começam ditando as regras. Assim, a primeira marca de nossa jovem filosofia é uma peleja com os autores oriundos dos países “metropolitanos”. Pessoas passam a vida argüindo os temas ocultos nas obras dos filósofos europeus. Esse modelo do estruturalismo francês de fazer filosofia, que marca desde a “missão francesa” na USP, faz eco com outra postura de comentarista entre nós, a saber, a ideia da Escolástica de que a filosofia é serva da teologia e como tal deve apenas comentar. Os textos sagrados, no âmbito daquela tradição eclesiástica, já estão postos e prontos; e mais, não ousemos criar um “novo testamento”.   Ideia muito bem tematizada em conferência pelo professor Margute Pinto, um comentarista de Witigenstei – em crise.
Dessa subserviência estrutural e as vezes necessária para se formar novos filósofos, pois se prescindir da história das ideias nos parece um esquecimento impossível,  chegamos que a filosofia é definida apenas como atividade “oroborus”(aquela cobra que morde o próprio rabo). Filosofia só pode ser o ato de “comentar os temas clássicos presentes nos autores clássicos”. O lado externo dessa atividade espiritual só pode ser traduzido em formas de artigos e livros. (Esses filósofos de jornais não contam.)
Ora, qualquer ousadia fora desse padrão da filosofia universitária logo será ridicularizada. Lembro-me que muito recente se aventou uma “profissão de filósofo”. Claro que o contexto do proponente não ajudou, sua forma mais nos lembrava a doação de título nobiliárquicos da época do Brasil monárquico.  E certamente tais idiossincrasias contribuíram para reafirmar o dito dos filósofos do Estado, isto é, de todo professor de filosofia que ocupa os cargos mais proeminentes na estruturação do saber-poder filosófico brasileiro.  A tal anedota da profissão de filósofo, proposto por um tal de “Moderno” de uma tal Academia Brasileira de Filosofia, serviu bem para reafirmar aos “pensadores” remunerados pelas verbas do Estado a dizerem o que é filosofia: uma montanha refinada e bem articulada de ditos sobre outros ditose que raramente consegue se articular com os ditos populares, com a vida que pulsa nas ruas de nosso país e com as pessoas. Ainda no âmbito dessa querela, com ares de celeuma religiosa, qualquer um que conseguir articular tais artefatos lógicos semânticos e sintáticos é o mesmo que um indivíduo que passou 4 anos estudando isso em uma universidade.  O fiel da balança não é o título obtido por empenho de uma pessoa, mas se ele “publica filosofia”.  Portanto Dimenstein é filósofo, e aqui devemos ignorar toda a sua ligação familiar com conglomerados de mídias, devemos, desse modo, “acreditar” que suas ideias são filosóficas. Ou mesmo o polêmico “Schopenhauer” brasileiro, também conhecido por Olavo de Carvalho, que após explorar temas expurgados da Filosofia universitária, tais como astrologia, hoje deveria ser considerado filósofo exatamente por ser o que mais vende seus livros. 
Curiosamente o nosso “Schopenhauer” não goza da anuência dos filósofos estabelecidos ou Estatais, que o ignoram. Alguns poucos que ousam dar-lhe o crédito de existência são para lembrar que ele não tem diploma de filosofia, isto é, não se submeteu ao regime hierárquico do saber oficial. A aparente contradição entre os dois “pensadores” parece-me muito bem explicitada se tomarmos o regime de Poder subjacente a qualquer saber; nos dois casos o que temos é uma disputa pelo poder de dizer o que é filosofia, através da atividade de expor emaranhados lógicos como sendo filosofia.
Na sequência dessa reflexão do que é a filosofia, passado pela ideia de que dizer o que é um saber é uma relação de poder, resta-nos ainda verificar mais uma coisa. Na divisão do saber, que assistimos na modernidade, que em primeiro momento nos encanta dado os resultados capazes de aplacar nosso desamparo frente ao mundo, coube a anciã filosofia, e isso replicado pelos pensadores bem empregados no Estado, apenas dá voos de um pico a outro das grandes montanhas. A filosofia não pode mais falar de subjetividade daquele indivíduo, só se for de todos os indivíduos e jamais de uma pessoa. Até mesmo pensamentos de Espinosa, Kiegaarde ou Nietzsche, só se prestam para publicar árticos analíticos.  Como bem disse Maria João, doutora em Filosofia, em seu Método Racioviatalista de poetizar ou terapêutico, o filósofo se identifica tanto com seu desejo ‘puritano’ (termo nosso) de ser objetivo que perde a si próprio.  E tal alienação se enquadra bem nos usos que o “Poder faz do saber. E aqui não quero dizer que há um “poder” àespreita operando tais coisas (Teoria da conspiração é coisa de lunático; a organização mais poderoso hoje do Brasil não é A ou B, ela tem nome: FEBRAN) creio muito mais na divisão do saber e a alienação do indivíduo que é portador dele sejam efeitos. Os indivíduos não estão ocupados em produzir os efeitos, mas se ocupam do que causa os efeitos e por se isolarem nesses fazeres não percebem o que eles produzem no contexto ou as varias causas do contexto a agirem sobre ele (nós).
A ruptura da especialização, já tematizada na “Filosofia do Direito” de Hegel, é uma “faca de dois gumes”. Ela produz belos efeitos iniciais, mas a longo prazo nos tornam frágeis; condição que estávamos fugindo inicialmente. E a fragilidade que estou aqui arrolando é a nossa de formados em filosofia. Presos no “labirinto do minotauro” em sempre nos deixa enredar pela definição oficial do que é filosofia. Condenados a analisar, e a reproduzir o mito de “oroborus”, isto é, ensinar as ideias postas como clássicas de filosofia para pessoas que irão ensina-las para outros…
Penso que precisamos aprofundar o delineamento dessa falácia da filosofia “analítica” ou “metafísica”. Não é possível vivermos presos na realidade semântica jogada por outrens que se beneficiam exatamente desse modo de jogar. Sob a ótica do tema nietzschenao do “Poder” a filosofia precisa ir de encontro a um pé de alface ou à subjetividade de uma pessoa. Não assistamos Freud (Nietzsche e Espinosa) ou Lacan (Hegel via Kogevie) assediarem os vários conceitos da filosofia e saírem incólumes como fundadores de intervenções eficientes do psiquismo humano. Eles foram excelentes filósofos e suas contribuições filosóficas apenas se travestiram de outros nomes para atender uma questão da economia do “Poder”. Não podemos ignorar que na atualidade os “marqueteiros” estão assediando os temas de Merlo-Ponty ou a “Programação Neuro Linguística” usurpando toda uma reflexão da fenomenologia. Sem falar da Psicologia que teve origem em Wolf, aquela “vaca” sagrada da Prússia de Kant.  

Estética e Educação, pois ensinar filosofia não precisar ser algo mentalista.

O ócio produtivo: ociosos ansiosos!

Introito
Esse texto é dedicado aos (meus!?) amig@s, Luciana, Cláudia, José Carlos, Givanildo, Estevam, ociosos de caminhada. Que sempre tiveram um ócio para os amigos, que “flanam” (fr. flâneur) com frequência, que curtem uma prosa ao léu.
Introdução
A presente divagação/texto tem como objetivo discorrer sobre o problema do hiper-objetivismo de nossos dias. De como tal “performance de varejista” nos inibe do ócio necessário para simplesmente estarmos conosco. E de como tal exterioridade objetivista nos possui, e nos impede, foco principal da minha reflexão atual, de compreendermos não só filosofia como exercício, mas de termos espaço em nós para uma contemplação do inominável; ou, para um bordão, de cuidarmos mais dos temas da mística (espiritualidade).
1. Ócio instrumental
O presente pode ser sempre uma leitura do passado, dos vários passados e um posicionamento distinto deles. Porém, o condicionante “pode” nos chama a atenção. Poucos somos os que procuramos esse equilíbrio, essa sabedoria e, para piorar, mesmo procurando o equilíbrio, pelo simples fato de estarmos no mundo real, mundo composto de variantes infinitas, não é certeza que conseguimos ser “sujeitos” de nossas histórias. Nós vemos frequentemente assujeitados (Estruturalismo filosófico).
O conhecimento das ciências de nossos dias não existiu desde o sempre. Ele tem um nascimento, fruto de milênios de gestação (tomando a matemática pura da Grécia Antiga). Assim, o conhecimento que nos permitiu nos últimos 500 anos dominar as intempéries da vida, prever o “imprevisto”, ampliar nossa força muscular, represar rios, aumentar a colheita, estocar calor, proteger os pés, pode, no seu uso inadequado, ter produzido um estado semelhante ao que ele próprio tentou evitar. A saber, não somos sujeitos, somos totalmente dependentes das tecnologias. Nesse âmbito do espírito é como se estivéssemos de volta à tão temida “idade media”, totalmente entregue a divina providência, hoje a divina providência do novo “App”, da nova cirúrgica por cateter, sem falar do onisciente plano de saúde e sua economia da vida. 
No contexto do conhecimento instrumental-técnico, pois tal saber se preocupa em ser sempre útil e capaz de produzir a dominação do sabido fabricando instrumentos para tal, o que podemos verificar é que o ócio e outras dimensões do humano foram banidas. O estereotipo, e como tal cheio de “ismos”, dos nossos dias é o “executivo” sempre envolto em projetos urgentes. Esse ser de nossos dias tem milhares de objetivos úteis em curso; e ele os executa como se a cada um dependesse o destino de toda a humanidade; como se todo o sentido da vida humana estivesse em jogo a cada manhã. A cada boletim da CBN, a rádio que não flana, mas “toca sandices, digo, notícias”. Ou nos jornalistas de economia, da CNN, Bloomberg, Tv5Monde, etc., sempre magros, esbeltos, brancos, altos e falantes de “ingreis”. O gordo, a barba a fazer, o baixo, o negro, a negra obesa, não fazem parte da hiper-performativo, são moralmente tratados como menores. 
Essa “performatividade de varejista” (no comercio o varejo produz a cada dia eventos novos para manter o número de vendas crescendo “ad infinitum) encampa o existir humano. Essa compulsão, muito bem tematizada na aristocrática psicanálise, preenche o existir do “varejista”. O ócio para ele é a angústia em pessoa. Ele não sabe ser por si; ele só é através dos objetivos úteis que o ocupa diariamente.
Eis o burocrata, preenchedor de diários* ( texto irônico que fiz para criticar os profissionais de educação que foram parar na escola por falta de emprego em outros setores.), que se locupleta nas tabelas, nos gráficos, sem jamais conseguir um minuto de ócio possível.
2. A “SOLUÇÃO DEFINITIVA: LEIAM CÍDIO LOPES/SIDNEY SHELDON” (rssssss)
Não tem saída pronta. O problema do sentido da existência e da própria existência, não está em fórmulas de Sidney Sheldon, muito menos Cortela ou Pondé, bons professores. (Olavo de Carvalho não é professor e muito menos filósofo; ele é um excelente pastor e catequista, mas morro de inveja dele por vender tanto livro catequético.)  
Como pensar a espiritualidade ou as coisas humanas propriamente? Como escapar ao desejo insano de ir ao supermercado e comprar mais uma nova “espiritualidade”, já que aquela budista da última semana já está na lata de lixo? Ou baixar o novo App da Cabala versão do ano seguinte?
Creio que um filósofo tenha mais habilidade em problematizar, em indicar causas sob as aparências ou até mesmo o que causa as aparências, do que as soluções. Solucionar não lhe é o “metiê” mais excelso dentro do modelo do “executivo de varejo”. Contudo, não indicar uma solução, o que afronta nossa ânsia de varejista e já nos coloca em situação de ansiedade, pode ser o jeito de encaminhar do filósofo e que tanto nos faz falta. Para os apressados varejistas, dos quais abundam falsos pensadores que não passam de catequistas laicos munidos de bugigangas úteis para a sua vida mais feliz, dizemos que se há uma saída essa não será nos moldes da razão instrumental técnica. Adiantamos ainda em dizer que fora da  razão útil há muito mais que  um oposto “dialético” (em Hegel toda determinação estabelece relação fulcral com o seu outro; o Grande Outro de Lacan).
O mais honesto é pensar que se é a vida de cada um, cada um é o mais importante nesse projeto. Propor saídas é retirar de todos esse lugar de estar consigo, de gozar de ficar só, de ver a “melancolia” (Refiro-me ao Filme de Lars von Trier) se aproximando. De curtir o ocaso do dia e das coisas, de silenciar-se, de nadificar-se.

Claro que tal situação é voluntária e se enquadra no “sei que nada sei” de Sócrates. (tema para outro texto) Ser “nadificado” pelo racismo, pelo machismo, pelo cartão de crédito é uma negação. É coisa de medíocres.
Estética e Educação, pois ensinar filosofia não precisar ser algo mentalista.